A Happy House in a Black Planet: Introdução à Subcultura Gótica
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TRIP HOP

Como uma música pode ser sensual e triste ao mesmo tempo? Não é incomum vermos músicas do Portishead listadas tanto em listas de "melhores músicas para fazer sexo" quanto em listas de "músicas mais suicidas e depressivas". Bem, sexo e morte sempre foram uma dobradinha excitante, não é mesmo?

Nos anos 90, algumas bandas cometeram a heresia de colocar um DJ como "músico membro" de uma banda. Algo óbvio como colocar um ovo em pé, mas que não havia sido ousado até então. Neste caso, a heresia foi premiada com o céu do sucesso e as chamas da clonagem infinita.

Mas um novo estilo havia sido criado. A data "oficial" de batismo do Trip-Hop é 1995, quando jornalistas precisavam de um novo termo para nomear toda uma corrente de música eletrônica/pop experimental, especialmente a cena local das cidades Bristol e Portishead na Inglaterra, aonde desde os anos 80 um coletivo jovens músicos vinha fazendo suas experiências.

1994 é o ano do emblemático album Dummy do Portishead, que traz todos os elementos básicos do estilo de forma bastante clara. Mas mesmo sem nome, o estilo está entre nós a virada para os anos 90. Por que o nome Trip-Hop?

Hop goes trippy

A parte Hop vem de Hip-Hop, pois a maioria das ritmos experimentais deste gênero tinha como base alterações ou quebras no hip-hop (claro que há outras influências). A parte Trip vem do termo viajar (trip, em inglês) devido a forte influência de sons "viajantes" do Jazz experimental, Acid-Jazz e Darkwave (às vezes, Ethereal). Outra influência é a de trilhas sonoras de filmes, especialmente os de base jazzística antigos. Aliás, o clima "retrô" é parte essencial da receita do Trip-Hop.

Algumas influências ficam claras se observarmos os samples (partes de outras músicas alterado e inseridos em uma nova composição) de álbuns fundamentais desse estilo: The Cure, Velvet Underground, etc. Também no álbum Mezzanine (1998) do Massive Attack traz vocais de Beth Fraser do Cocteau Twins.

Apesar de experiências serem feitas desde 1991 e depois de 1998, podemos dizer que a consolidação do estilo se deu de 1994 a 1998. Depois aconteceu, uma série de ramificações de estilos derivados e misturas com outros estilos, como o down-tempo, ambient, ethno-lounge, e outros experimentalismos eletrônicos ou acústicos.

Bristol goes dark

A "cena de Bristol" contava com uma série de grupos que trabalhavam juntos: Tricky, Portishead, Massive Attack, Smight & Mighty, e outros. Estes grupos têm uma sonoridade característica, mais sombria e dilacerada, que ficou caracterizada como Trip-Hop "estilo Bristol", mesmo quando praticado por grupos de outras localidades.

Também por essas características, esta linha atraiu muitas bandas de Darkwave e Gothic que começaram a fazer experiências com o estilo no final dos anos 90. Alguns bons exemplos são Switchblade Symphony (nos últimos trabalhos), Ego Likeness (mais intensamente nos primeiros álbuns, mas com influência até hoje) e o Sunday Munich, entre outros.

Álbuns fundamentais do estilo trip hop, na minha opinião, para quem quer começar a conhecer o estilo:

No álbum Roseland NYC Live, Portishead vem mais pop e acessível: acompanhado da massa sonora de uma orquestra. A apresentação e vocal é mais dilacerado. Mas nos dois álbuns originais as mesmas músicas podem ser encontradas nas suas versões mais cruas e minimalistas, mas não menos dilaceradas.

A wild bunch

O álbum Blue Lines (1991) do Massive Attack quando Tricky ainda fazia parte deste grupo, apesar de um pouco menos famoso, é considerado por alguns o álbum que deu origem ao Trip-Hop (antes mesmo do estilo estar cristalizado). Depois Tricky sairia em carreira solo, com Aftermath em 1993. O álbum de estréia, Pre-Millenium Tension (1996) é uma boa pedida, apesar de Tricky logo renegar o estilo que ajudou a criar. Protection (1994) do Massive Attack também é importante.

Um trip-hop mais "pop" pode ser curtido com a banda Morcheeba, que no final dos anos 90 vendeu toneladas de cds: Trigger Hippie (Single-1998), Big Calm Sire (1998) e Fragments of Freedom Sire (2000).

Se você gostou do que ouviu dessas bandas anteriores, provavelmente vai gostar do Sneaker Pimps (Becoming, de 1996, Splinter, de 1997, Bloodsport, de 2002, já com o vocal de Chris Corner, hoje conhecido pelo seu trabalho no IAMX) e do Sunday Munich: (Pneuma, de 1998, Vinculum, de 2000) que às vezes é classificado como "Trip-Goth", devido aos climas sombrios.

Importante lembrar que muitos destes grupos mudaram de estilo ao longo dos anos, não se limitando ao Trip-Hop.

Mas nem só de "chill outs" vive o trip-hop: o gênero pode tanto ser suave como chegar a ritmos pesados e mais acelerados, com uso ou não de guitarra. Assim como o rock, há de todos os tipos. Agora que você já viciou, lá vai uma mistura de estilos e variações:

Há também álbuns excelentes que não são especificamente de Trip-Hop mas que tem influência em algumas faixas e pesquisas similares:

A popularização e disseminação

O sucesso estrondoso dos principais grupos pioneiros (principalmente Portishead, Massive Attack, Morcheeba e Tricky) fez com que sua fórmula fosse tão copiada e repetida que esses grupos originais demoraram a lançar novos álbuns, não lançaram mais, ou partiram para experimentações diferentes do "padrão" que ajudaram a criar. O que é totalmente coerente com sua inventividade e ousadia originais, apesar de decepcionar parte dos fãs mais ardorosos.

Hoje existem inúmeros subestilos derivados ou ramificações do Trip-Hop: downtempo, dark-ambient, ambient, etc. Não existe exatamente um acordo onde começa ou termina cada um destes subestilos, ou se eles configuram tendências separadas. No final dos anos 90 e começo do novo século, o Trip-Hop também foi absorvido por diversos outros estilos, sendo que podemos perceber sua influência em trabalhos dos mais variados, desde o pop mais comercial até o experimental mais alternativo.

Henrique Kipper (versão revisada de 2010)

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