A Happy House in a Black Planet: Introdução à Subcultura Gótica
Novos Artigos sobre a Subcultura Gótica

MICRO-MÍDIA E MICRO-COMÉRCIO NAS SUBCULTURAS ALTERNATIVAS

Nos últimos 15 anos a existência de redes de micro-mídia e micro-comércio mostrou ser um dos elementos essenciais para a existência(1) de subculturas alternativas com as características de: diferenciação, translocalidade, identidade, comprometimento e autonomia . Aqui falamos especialmente da subcultura Gótica, mas estes conceitos podem ser aplicados a outras subculturas.

No aspecto específico das mídias e comércio, foi exatamente a constituição de redes de micro-mídia e micro-comércio que permitem a existência de grupos subculturais independentes e alternativos consistentes e mais duradouros. Isso acontece simplesmente pois estas redes são colocadas a serviço dos valores subculturais destes grupos sociais, e não apenas a serviço das redes do mercado de massa e mídia de massa. As redes de comércio e mídia subculturais permitem que as subculturas resistam ao processo de acelerado obsolescência planejada (e descartabilidade) que caracteriza o capitalismo e a propaganda (e modas) dos últimos 30 anos.

Não por coincidência, a principal crítica da mídia de massa em relação as subculturas é que estas são “ultrapassadas” ou “fechadas e bitolantes”. Em geral, a mídia de massa só acredita nas verdades e preconceitos que cria, e o que ela não mostra, crê que não deveria existir. Assim, não consegue conceber o fato de subculturas consistentes e substanciais terem continuado não só a existir mas também a evoluir e se desenvolver sem aparecerem na grande mídia ou grande comércio.

Também uma outra previsão do início dos anos 90 de que as pessoas usariam a internet para pulverizar seus interesses, inviabilizando grupos sociais consistentes, se mostrou insustentável. Se algumas pessoas pulverizaram seus interesses, ao mesmo tempo a internet serviu de instrumento para que pessoas conseguissem viabilizar interesses pessoais centrais e especializados que já tinham e que viam antes inviabilizados pelo motivo de não poderem contatar de forma barata e rápida outras pessoas que tinham esses mesmos interesses alternativos.

Esta rede de micro-mídia especializada também ajudou o fortalecimento de uma rede de micro-comércio subcultural que permitiu um nível de diversificação e aprofundamento cultural sem precedentes, tanto na música quanto em revistas, roupas, livros, visuais, etc.

Revistas de baixa tiragem, sites especializados e redes de relacionamento online. Estes são são alguns elementos de micro-mídia que complementam o micro-comércio dos pequenos selos musicais, artesãos especialistas, eventos segmentados, bandas diversificadas e lojas especializadas dos mais variados itens subculturais. Podemos notar que este comércio e esta mídia seguem estruturas e padrões diferentes da grande mídia e comércio de massa, apesar dos pontos e áreas de contato entre os dois sistemas.

De forma diferente, a mídia e comércio de massa tendem a programar sua obsolescência (troca de modas e descartabilidade) em um ritmo cada vez mais acelerado, sendo que nestas trocas a sequência dos estilos trocados não guarda uma ligação de coerência entre si. Pelo contrário, é importante que a troca seja feita por uma “novidade totalmente nova”. Também por isso é importante que cada item de consumo não tenha ligação de significado com outras coisas, pessoas ou produtos. A aceleração da troca de modas e sua diversificação serve única e exclusivamente ao aumento da rentabilidade econômica e a novas formas de controle social (2).

De formas diferentes, se nos grupos subculturais também vemos ciclos de moda, estes são muito mais lentos e regidos em grande parte por pressões internas. E principalmente, seguem uma linha evolutiva que tira seu valor exatamente do fato de manter uma ligação com o passado subcultural e de manter ligação de significado com outros elementos estéticos daquela subcultura. Não ignoramos que as relações de custo-lucro funcionam da mesma forma que na mídia e mercado de massa, a diferença é que aqui estes são colocados em uma posição semelhante aquela que a economia tinha em culturas antigas: como um elo da cadeia social que servia aquela cultura, e não como um fim em si.

Vemos, assim, que é exatamente a existência de um micro-comércio e uma micro-mídia (3) especializada e subcultural que permite e permitiu, especialmente nos últimos 15 anos, que subculturas diferenciadas se viabilizassem com autonomia e auto-suficiência É exatamente esta autossuficiência econômica e midiática que permite que estas subculturas se aprofundem nas suas características diferenciais e durem.

E que se mantenham independentes dos rótulos fragmentadores da mídia e mercado de massa, que buscam sistematicamente de-substancializar qualquer fenômeno cultural e social como forma de inseri-lo em seu sistema de mídia e comércio que - devido a velocidade e foco lucrativo- só funciona com elementos desconectados. (Os elementos não são descartáveis em si: são descartáveis porque são desconectados de nossa história pessoal e social. Assim, deixam de significar. Tudo que não significa é descartável, sejam pessoas, carros, relacionamentos, música, prazer, livros, etc.)

Com esta nova estrutura, é muito provável que as subculturas significativas que existem hoje não venham a acabar em um futuro previsível. Simplesmente porque cada vez mais estão independentes da mídia e mercado de massa. O segundo motivo pelo qual estas subculturas permanecerão é o fato de serem, de fato, alternativas no sentido de elaborarem conteúdos culturais que não são tão valorizados nas culturas mundiais majoritárias.

 

H. A. Kipper, 2010

 

NOTAS:

(1) Esse fato ficou mais claro nos últimos 15 anos, contradizendo a teorização e previsões de duas das principais e antagônicas correntes de pensamento dos últimos 50 anos. Tanto os descendentes da teoria crítica da cultura de massa quanto os apologistas da pós-modernidade. Os primeiros acreditavam que a existência circuitos de mídia e comércio condenavam a cultura a degeneração, e os segundos celebravam estes circuitos, mas acreditavam que não existiria mais culturas substanciais neste contexto. No ponto específico das subculturas alternativas, ambos falharam pelo extremismo de suas previsões, e podemos dizer que outro caminho tem sido buscado por uma nova teoria subculturalista desde o final dos anos 90.

A teoria subculturalista que floresceu desde o final dos anos 90 (Hodkinson e Cia) diverge tanto da teoria das “tribos pós-modernas” (Mafesolli, e Cia) quanto das versões antigas de teoria subculturas (Hebdige, Hall e Cia), mas elabora elementos de ambas para um contexto histórico atual.


(2) como comenta Lipovetsky, Gilles em “A Era do Vazio”, apesar do autor ser mais otimista quanto a este processo, talvez por ter escrito duas décadas atrás.


(3) Micro mídia e micro-comércio não surgiram ontem. Apenas se atualizaram tecnicamente: trocas fanzines e fitas cassete foram substituídos pela troca de blogs, sites e mp3, democratizando o aceso a estes conteúdos e quebrando sistemas de submissão e poder.

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