A Happy House in a Black Planet: Introdução à Subcultura Gótica
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ALGUMAS DIFERENÇAS ENTRE OS CONCEITOS DE “TRIBO” E “SUBCULTURA”

Michel Maffesoli popularizou o termo “tribos pós-modernas” com seu livro “Tempos das Tribos” de 1986, entre outros. Na onda da ideologia pós-moderna e ascensão do neoliberalismo, como e por que esse conceito se tornou moda nos anos 90? Qual a diferença entre o termo subcultura como usado nos anos 1970 e a reformulação do conceito de subcultura do final dos anos 1990 até hoje?

Para entender esse processo é racapitular  alguns fatos históricos e teorias desse período
e posteriores. David Harvey e Fredric Jameson definem pos-modernidade como o estágio do capitalismo avançado de consumo, e pos-modernismo como a ideologia que sustenta a fase avançada deste capitalismo -no final do século XX- que precisa de uma ideologia de identidades flexíveis (tanto para viabilizar modas consumistas cada vez mais rápidas, e também a precarização das condições de trabalho e salários piores). De um momento para outro ter uma identidade pessoal ou social, trabalho ou utopia se tornou “conservador e ultrapassado” segundo a ideologia pós-moderna. Para entender mais esta questão, leia o artigo “Uma Crítica da Ideologia Pós-Moderna”.

Se teoria de Maffesoli não foi cunhada especialmente para este contexto, caiu como uma luva e foi adotada sequiosamente por setores da mídia e da comunicação (publicidade, jornalismo, etc) popularizando-se rapidamente no meio acadêmico destas áreas e caindo no senso comum. Porém nem tudo que se fala sobre tribos estava na sua teoria, por isso vamos analizar alguns de seus detalhes.

Importante lembrar que na mídia de massa muitos usam o termo “tribos” desconhecendo a teoria Maffesoliana, e usam o termo como algo referente às tribos indígenas ou autóctones do Brasil ou outro lugar. Assim o termo tribo além de não ser adequado para todos os tipos de grupos sociais alternativos muitas vezes é usado de forma errada ou pejorativa.

Também o termo subcultura é considerado às vezes de forma equivocada: é preciso lembrar que o prefixo “sub” não se refere aqui a “inferior”, mas sim a algo que faz parte de outra coisas. Subculturas fazem sentido somente em relação ao pano de fundo das culturas “dominantes” das épocas, regiões, regiões em que se desenvolvem ou desenvolveram.  

Vejamos então as diferenças essenciais entre o conceito de “tribo pós-moderna” e de “subcultura translocal”:

CARACTERÍSTICAS DAS NEO- TRIBOS PÓS MODERNAS
Maffesoli descreve “neo-tribos pós modernas” (seja em 1986 como em 2010) como:
-fluidez, ajuntamentos pontuais e dispersões (p. 132)
-não são estáveis, são efêmeras.
-pensamento de massa em detrimento do indivíduo: a massa ou o povo não se apóiam em uma lógica de identidade, logo vão e vem entre várias identidades ou tribos (p.31, 243) “mudando o figurino ela vai...assumir seu lugar a cada dia, nas diversas peças do “theatrum mundi ”(p.133)
-a metáfora da tribo permite dar conta do processo de desindividualização (o autor comemora o fim do individualismo moderno, ou seja, do indivíduo como uma identidade estável)
-as tribos são grupos afetuais  (p. 31)
-proxemia como elemento essencial essencial desse tipo de sociabilidade (presença próxima ou localismo (p. 227)

CARACTERÍSTICAS DAS SUBCULTURAS TRADICIONAIS E SUBCULTURAS TRANSLOCAIS

Anteriormente (2008) Indiquei algumas características da definição atual de “subcultura” alternativa, especialmente de "subcultura translocal" neste e também neste texto, baseado especialmente em Hodkinson. Vamos repassar o básico:

Subcultura pode significar uma "parte de uma cultura" que possui um conjunto diferenciado de "valores, crenças, normas e padrões de comportamento, portanto um modo de vida compartilhado por parte de uma população" (Vila Nova, 2004). Podemos dar como exemplo as subculturas regionalistas tradicionais do Brasil, como a nordestina ou a gaúcha. Elas estão inseridas na sociedade brasileira e em sua cultura, mas, ao mesmo tempo, possuem um sistema de significação e representação do mundo próprio e único. (Kipper, 2008)

O QUE É SUBCULTURA URBANA E TRANSLOCAL?

"Com a industrialização, urbanização e globalização das informações, a situação das culturas mudou bastante. Principalmente na segunda metade do século XX, com o aparecimento da televisão e outros métodos de radiodifusão e, mais tarde, com o surgimento da Internet.

Temos um cenário no qual a cultura das zonas urbanas industrializadas tende a perder características locais e a adotar características de uma cultura global economificada: a cultura da sociedade de consumo contemporânea. Neste contexto, depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), começam a surgir algumas subculturas urbanas, como os Beats, Rockers, Mods, Skinheads, Hippies, Glam-Rockers, Punks, Góticos, etc.

Algumas delas desapareceram em pouco tempo, mas outras permaneceram e mantiveram coerência interna por um longo tempo. Hoje estas subculturas apresentam diversas características, entre elas, não serem limitadas geograficamente: a translocalidade.

Da mesma forma que as subculturas tradicionais ou regionais, o participante de uma subcultura translocal continua participando, de alguma forma, da cultura dominante local." (Kipper, 2008)

Paul Hodkinson (2002) identificana subcultura Gótica (e outras), quatro fatores interligados e complementares de consistência subcultural:
- DIFERENCIAÇÃO CONSISTENTE
- IDENTIDADE
- COMPROMETIMENTO
- AUTONOMIA

esses fatores são explicados um por um no capítulo 6.1) INDICADORES DE CONSISTÊNCIA SUBCULTURAL de "A Happy House in a Black Planet".

A questão do vínculo e comprometimento por longo prazo é comentada também aqui.

COMENTÁRIOS FINAIS:

Exatamente devido ao fato do conceito de tribo ter este significado específico que optamos neste livro por usar o conceito de subcultura como definido modernamente como por Paul Hodkinson. Este é um conceito de subcultura atualizado, que leva em conta os avanços da teoria sociológica e etnográfica do final do século XX. Ken Gelder em seu livro “Subcultures Reader” (1997/2002) edita um histórico do uso do termo subcultura ao longo do século XX e seus desenvolvimentos no século XXI. Por isso convém não tomar o termo subcultura com usado anteriormente: os conceitos ultrapassado das teoria subculturalista já foram criticados e revisados pelos próprios autores que hoje usam o termo atualizado e contextulizado para o século XXI.

Hodkinson (2002) sugere o uso de “tribos” para o tipo de grupamento social definido por Maffesoli (1986, 2010) e de “subcultura” para o tipo de grupamentos sociais com maior consistência e perenidade.

O "sub" de subculturas não indica de forma alguma, portanto, "inferioridade", mas sim, subdivisão ou divergência em relação à algo em relação a que faz sentido. Assim, podemos também chamar as subculturas de "culturas" ou "culturas alternativas" se tivermos em mente que são "culturas alternativas" e "alternativo" exige que seja algo "alter" ou outro, diferente em relação à uma cultura de referência, geralmente (pre)dominante ou hegemônica em determinada época, região e contexto social. E que estamos nos referindo a um tipo de vivência humana que tende mais a perenidade e vinculação significativade relações sociais, e menos à transitoriedade e relações impessoais que marcam o capitalismo de consumo e descarte e a ideologia pós-moderna, como comentamos mai slongamente no artigo "Etnofobia".

H. A. Kipper, fevereiro de 2012


Referências bibliográficas:

GELDER, Ken et alii. (Org.). The subcultures reader. 2nd ed. Londres: Routledge, 2005.

HODKINSON, Paul. Goth: identity, style and subculture. New York: Berg, 2002

HARVEY, David. A condição pós-moderna. Trad. Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Loyola,  2005.

JAMESON, Fredric. Pos-Modernismo: a lógica cultural do modernismo tardio. Trad. Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática,  2002.

MAFFESOLI, Michel. O tempo das tribos: o declínio do individualismo nas sociedades de massa. Trad. Maria de Lourdes Menezes. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2006.

MAFFESOLI, Michel. Saturação. Trad. Ana Goldberger. São Paulo: Iluminuras, 2010.

VILA NOVA, Sebastião. Introdução à sociologia. São Paulo: Atlas , 2004.


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