A Happy House in a Black Planet: Introdução à Subcultura Gótica
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SUBCULTURAS: O SIGNIFICADO DO ESTILO & HOMOLOGIA

"… quando aquele objeto é colocado dentro de um conjunto totalmente diferente, um novo discurso é constituído, uma nova mensagem é veiculada."
(Clarcke, 1976, em Hebdige, 1979)

Uma das principais diferenças entre o estilo em uma subcultura e o estilo no mercado de massas é a questão da homologia subcultural. Subculturas e culturas estabelecem redes de símbolos homólogos, históricamente fundados e mais estáveis (apesar da atualização constante e absorção de novos elementos). Já o mercado de massa trabalha com fragmentos mais desconectados que são descartados por outro fragmento sem ligação no próximo ciclo, e este por outro, e assim por diante.

O QUE É HOMOLOGIA?

“Homologia é o estudo das coisas homólogas. Coisas homólogas seriam aquelas que, apesar de diferentes na forma, guardam uma relação de significado, ou, ainda, a relação entre um conceito ou idéia e suas formas e símbolos.

Muito importante salientar que a homologia em um sistema cultural ou subcultural não é uma relação nem fechada nem estática. De forma comparável à língua de um povo, ela evolui de acordo com a sua utilização pelo grupo social e também tem um espaço grande de "ruído" que permite a sua renovação coerente e a criatividade dos indivíduos.” (Kipper, 2008)

A homologia nas subculturas:

"Paul Willis (1978) aplicou a palavra "homologia" a uma subcultura no seu estudo dos hippies e motociclistas, usando o termo para descrever a relação/adequação simbólica (symbolic fit) entre os valores e o estilo de vida de um grupo, sua experiência subjetiva e as formas musicais que este grupo usa para expressar ou reforçar o que considera importante. No texto "Profane Culture", Willis mostra como (...) a estrutura interna de qualquer subcultura é caracterizada por uma extrema ordenação: cada parte é organicamente relacionada a outras partes e é através da adequação entre elas que os membros de uma subcultura entendem o sentido do mundo." (Dick Hebdige, 1979)

Culturas e subculturas nunca estão prontas. Os estilos nas subculturas evoluem (e se atualizam) dentro do mesmo sistema e mais lentamente. Ao contrário, os estilos no mercado de massa são substituídos cada vez mais rapidamente e por fragmentos de estilo geralmente diferentes do anterior.

Cada subcultura possui seu micro-mercado e sua micro-mídia, mas estes estão a serviço do sistema subcultural, e não o contrário: a partir do momento que um agente subcultural busca desenvolver uma dinâmica fragmentada e acelerada de mercado de massa, ele acaba desacreditado ou expelido do sistema subcultural.

no mercado de massa em geral o estilo das obras e objetos não está relacionado a nenhum contexto, pois devem e precisam ser substituídas na próxima estação ou tendência: um estilo musical ou banda deve ser vendido apenas como “música”, e uma roupa deve ser todo o estilo (e “experiência”) em si, sem necessitar de mais nada. Exatamente por isso essas modas satisfazem por pouco tempo: é aplicação da insatisfação programada ao mercado do estilo. É assim para que o círculo de consumo seguido de descarte e novo consumo continue girando.

Importante não confundir homologia com resignificação (leia um texto sobre o assunto), um processo relacionado mas diferente.

ALGUNS EXEMPLOS DE HOMOLOGIA NOS ESTILOS SUBCULTURAIS:

Vamos analisar e comparar apenas algumas poucas características e valores relacionados em algumas subculturas. Importante lembrar que aqui não estamos comentando nem estilos musicais de mesmo nome, nem indivíduos mas, isto sim, a estética e valores vinculados ao estilo (músicas, visuais, design, pôsteres, maquiagem, comportamentos, letras, padrões de beleza, etc) de cada grupo social. Resumimos alguns pontos bem básicos abaixo:

-PUNK: o Punk (1977) tem um discurso estético urgente, literal e fragmentado: a estética dos fanzines é intencionalmente descuidada e “tosca”, assim como a música, a atitude, a roupa e maquiagem. Tudo negligente, com partes sobrepostas e "remendadas" (seja zine ou roupa). As letras geralmente são diretas (sem muitas metáforas e figuras de linguagem), explícitas e muitas vezes agressivas. (como a música, a atitude, as roupas e os zines). “Havia uma relação homológica entre as roupas toscamente remendadas, o cuspir, o vomitar, o formato dos fanzines, as poses insurgentes e a música conduzida freneticamente." (Hebdige, 1979) Tudo que for muito elaborado e planejado é geralmente rejeitado no plano do discurso punk. É comum em alguns grupos punks um discurso político explícito (as vezes anarquista, outras vezes anarco-sindicalista ou comunista, entre outros). Na questão da aparência de gênero (masculino/feminino), o estilo punk subverte o modelo dominante no sentido da androginia, ou seja, do neutro: o visual punk não diferencia muito o que deve ser visual masculino e o que é visual feminino, mas a atitude comportamental, seja para homens ou mulheres punks, é o mesma. No estilo punk a força física não é valorizada na forma de massa muscular nem do tipo “saudável”.

-EBM: o estilo ligado ao EBM tradicional tem, históricamente, um discurso ligado a estética marcial (militar) ou do homem marcializado no trabalho industrial: isso fica claro na estética dod elementos musicais, visual das bandas e iconografia do material gráfico, etc. As letras em geral são curtas ou simulam slogans. Símbolos políticos são muito usados. É comum um discurso distópico (utopia negativa sobre o futuro). O uso farto de roupas camufladas e outros elementos militares também faz parte deste sistema estético. Da mesma forma, máquinas, sejam de produção industrial ou destruição industrial são fetichizadas. Os uniformes podem ser de trabalhadores industriais ou militares. O uso de cortes de cabelo em estilo militar complementa o quadro. Isso muitas vezes é usado como crítica ao militarismo, porém alguns não se atraem por isso no contexto metalingüístico, e sim no contexto de apologia ao militarismo. Na questão da aparência de gênero (masculino/feminino), esta estética reforça caracteres historicamente relacionados ao masculino, como força, rigidez de movimento e massa muscular. Um padrão estético seria do tipo “herói da classe trabalhadora” que se via, por exemplo, em cartazes soviéticos” de meados do século XX. Não por coincidência, no Cyber-Goth esse padrão estético migra mais para o padrão gótico, apesar das bases eletrônicas muitas vezes semelhantes.

-SKIN-HEADS (1969): Stuart Hall comenta que "As botas, os suspensórios e o cabelo raspado só foram considerados apropriados e conseqüentemente significativos porque eles comunicavam as qualidades desejadas: dureza, masculinidade e a classe trabalhadora local. Desta forma, os objetos simbólicos - roupa, aparência, linguagem, ocasiões de ritual, estilos de interação, música- foram feitos para formar uma unidade com as relações, situações e experiência do grupo" (Hall, 1976).

-GÓTICO: o estilo Gótico tem, historicamente, um discurso de rejeição ou desencanto com o presente e idealização do passado (perdido). Dificilmente vemos um discurso político explícito e direto como é mais comum no punk ou EBM: a subversão do estilo gótico percorre outros caminhos. Vemos todo um discurso com ligação com uma estética lunar (ou predominantemente Ying nos símbolos mais recorrentes): isso fica claro tanto em elementos musicais, visual das bandas, obras literárias cultuadas, comportamento, estética e iconografia do material gráfico, etc. e nos símbolos usados, principalmente organizado em torno dos eixos: O Sombrio e o Macabro / O Feminino e o Ambíguo. Por comparação, vemos uma apologia à cultura erudita (como valor) que não encontramos no Punk e EBM. Como o punk, o gótico também confunde o sistema de caracteres sexuais estabelecidos, mas no sentido da feminilidade, e não do neutro. O padrão de beleza tende a reforçar ainda mais elementos feminilidade nas mulheres, seja de forma tradicional ou alternativa, mas sem determinar um tipo físico padrão. Já no padrão de beleza masculino não há uma valorização simbólica da força, músculos e outras características historicamente associadas ao masculino.

-HEAVY-METAL: o estilo do METAL tradicional tem, historicamente, um discurso de resgate do masculino: o padrão de fotos geralmente traz homens em poses másculas (por exemplo: braços cruzados, maxilares projetados, pernas entreabertas, muitas vezes musculosos, etc). Em muitos subestilos de heavy-metal é usada a simbologia de guerreiros de algum tipo, com os tradicionais cabelos longos. Uma estética de agressividade exteriorizada é comum, e fica clara em alguns tipos de vocais e instrumentação. Mesmo em bandas com vocalistas mulheres a divisão de estética de masculino e feminino permanece a tradicional. Letras e músicas tendem a ser mais elaboradas, com uma valorização da técnica musical clássica, em oposição a valorização do minimalismo que encontramos no punk e EBM e, de forma menos generalizada, no Gótico e Darkwave (apesar dos elementos minimalistas fortes nestes estilos).

Estes são exemplos generalizantes e didáticos: é claro que existem subtipos e muitas variantes. Mas, de forma mais sutil, ou mais explícita como nestes exemplos, podemos verificar o funcionamento de relações homólogas entre os diferentes elementos estéticos de uma subcultura. O mesmo tipo de análise pode ser feito em outras subculturas de longa duração.

“...podemos dizer que um estilo nos atrai por que de alguma forma - provavelmente não consciente - reconhecemos afetivamente em seus símbolos algo que buscamos, talvez a simulação ou a realização de um dos artigos mais raros atualmente: o sentido.

Quando nos sentimos atraídos por uma subcultura, muitas vezes intuitivamente ou apaixonadamente, isso acontece geralmente porque as representações da visão de mundo desta subcultura englobam, combinam parcialmente ou produzem uma integração na nossa visão de mundo pessoal.” (Kipper, 2008)

H. A. Kipper, Julho 2011

Citações e sugestões de leitura:

-The Subcultures Reader- edited by Ken Gelder- 2nd Ed.- 2005
-Goth: Identity, Style and Subculture
- Paul Hodkinson- 2002
-Subculture: The Meaning of Style- Dick Hebdige-1979
-Resistence Through Rituals, youth subcultures in post-war Britain- edited by Stuart Hall and Tony Jefferson-1975
-A Happy House in a Black Planet: Introdução à subcultura Gótica- H. A. Kipper- 2008


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