A Happy House in a Black Planet: Introdução à Subcultura Gótica
Novos Artigos sobre a Subcultura Gótica

A MÚSICA NA SUBCULTURA GÓTICA: DIVERSIFICADA, ECLÉTICA E MUTANTE

1- GÊNEROS MUSICAIS X SUBCULTURAS MUSICAIS

Existe muita confusão entre “gêneros musicais”, “subculturas musicais” e outros tipos de subculturas que incluem música. Para tentar esclarecer, vamos começar fazendo uma distinção entre dois tipos possíveis de subculturas que incluem expressão musical:

A) SUBCULTURAS COM UM GÊNERO MUSICAL – E COM O MESMO NOME:
algumas subculturas se definem por UM gênero musical e variações deste. Ex: Hip-Hop, Blues, Punk, Metal, Rockers, etc. Aqui, o nome de um grupo social deriva diretamente de UM gênero musical e suas variações. O grupo social usa o nome desse gênero musical.

B) SUBCULTURAS COM VÁRIOS GÊNEROS MUSICAIS- E COM OUTRO NOME:
algumas subculturas aplicam algumas características significativas do seu estilo próprio a vários gêneros musicais, usando-os para expressar seu estilo e estética (1) característicos, mesmo que alguns gêneros musicais sejam mais privilegiados. Ex: Hippies, Góticos, Teds, Beats, etc. Assim, não existe neste caso um único “gênero musical Hippie” nem um único “gênero musical Gótico”. Existem “características de estilo Hippies” ou “características de estilo Góticas” aplicadas a vários gêneros musicais.

C) LIMITAÇÃO:
Mas há uma limitação importante para a aplicação de um estilo subcultural a qualquer estilo musical
: há rejeição ao uso de gêneros musicais historicamente ligados a outras “subculturas musicais” (que carregam o nome desse gênero musical), pois estes gêneros musicais tendem a ser associados pelos ouvintes ao caráter (2), valores e comportamentos das subculturas relacionadas de mesmo nome. Musicalmente não haveria problema, mas a música é também um fenômeno cultural e social que não existe isolada em uma bolha (a não ser no circuito comercial e mainstream).

Por isso há tanto conflito quando uma banda Gótica usa o gênero musical “metal” ou “hip-hop”. Há uma confusão pois os gêneros musicais “hip-hop” e “metal” remetem com muita força aos significados extra-musicais e valores das subculturas que recebem os nomes “metal” e “hip-hop”. O mesmo problema não acontece quando bandas Góticas usam gêneros musicais não ligados a um “grupo subcultural com um único gênero musical de mesmo nome” (tipo A). Synth, electro, rock (hoje), ethereal, são gêneros musicais que não nomeiam grupos sociais específicos, o contrário do que acontece com punk, hip-hop ou metal.

Também sofreria rejeição uma banda Gótica que usasse um gênero musical não ligado a outra subcultura, mas associado a algum grupo social ligado aos gêneros e modas musicais do mercado de massa. Por exemplo, um grupo Gótico que fizesse um som tipicamente pagode-pop ou sertanejo-pop.

GOSTO PESSOAL:

Mas nada impede de uma pessoa fortemente ligada a uma cena subcultural X ou Y desfrutar da qualidade de um estilo musical não relacionado a esta cena X ou Y. Por exemplo, uma pessoa profundamente identificada com os demais elementos estéticos, comunidades e valores da subcultura Hip-Hop pode desfrutar de outros estilos musicais. Apenas a música Hip-Hop vai ter mais significados para esta pessoa por estar ligada a outros elementos de sua vida e de suas escolhas pessoais.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado para um Gótico que goste também de Hip-Hop ou Samba, ou um Headbanger que goste de Hardcore ou Tecno, etc. Ao mesmo tempo, o Hip-hop (como outros gêneros musicais comentados) é também consumido no circuito comercial mundial sem estar ligado a outros elementos culturais.

2- ECLETISMO E DIVERSIDADE MUSICAL NAS CENAS GÓTICAS

Nas cenas de uma subcultura que não é nomeada por um gênero musical (caso da Hippie ou Gótica), geralmente existe maior variedade ou mistura de outros gêneros musicais. Logo, existem pontos de contato com outras cenas musicais/culturais. Por exemplo, bandas Góticas que musicalmente podem ser classificadas como "electro", “hard rock” ou “synth”. Não é apenas o gênero musical que faz estas bandas serem Góticas, mas outros elementos acrescentados na estética músical.

Acontece também o fenômeno de bandas não-góticas de gêneros musicais semelhantes aos mais usados por bandas góticas serem bem aceitas.

Da mesma forma que a maioria das bandas pos-punk não é Gótica, a maioria das bandas electro também não é. Mas existem muitas bandas Góticas que usam os estilos musicais pos-punk ou electro. Assim, se alguém fizer uma festa "electro" pode tocar estas bandas, mas aí você já não está em uma "festa gótica". Já na cena Gótica você vai ouvir uma grande diversidade de gêneros musicais, mas unificados por um estilo estético em comum, com características Góticas.

Também é muito comum bandas que são referências culturais em uma subcultura X serem apreciadas em outras subculturas Y ou Z ou em circuitos nas quais estes grupos musicais não são associados a nada além de “estilo de música”(como é comum no mercado de massa). Afinal, ninguém é dono de um símbolo. Todas as subculturas se apropriaram também de símbolos alheios, dando a eles novas leituras e significados.

3- GÓTICO NÃO É UM GÊNERO MUSICAL:

Assim, fica claro que Gótico não é um gênero musical. Da mesma forma que “Hippie”, Gótico é um estilo subcultural ou discurso específico (de um grupo social) que se apropria de vários gêneros musicais como seu veículo de expressão. E neste processo estes gêneros musicais são realizados com características estilísticas reconhecidas como “Góticas”(sobre quais são estas características já escrevemos nos seis textos do capítulo 7-Características da Subcultura Gótica).

Este discurso estético pode se apropriar de qualquer gênero musical desde que este não entre em contradição com seu discurso(3) Gótico. Contradição que pode acontecer por vários motivos, como já comentamos antes, no caso de gêneros musicais ligados historicamente a outras subculturas ou a outros grupos sociais com um eixo musical principal.

Como o Punk e Hip-hop, por exemplo, que batizam ao mesmo tempo subculturas e os gêneros musicais de mesmo nome. Mas também são gêneros musicais consumidos (e descartados...) por pessoas sem nenhuma ligação subcultural ou alternativa.

Hoje, gêneros musicais não são alternativos nem comerciais em si. Porém podem ser apropriados por discursos alternativos ou conformistas de grupos de pessoas, servindo de elementos ou veículos para estes discursos estéticos.

Por isso é importante que existam cenas góticas, cenas hip-hop, cenas metal e outras que preservem a sua diversidade e espaços de diferenças, e que as pessoas possam circular entre estes espaços sem restrições, respeitando, conhecendo (e desfrutando) a peculiaridade de todos os outros. Uma destas peculiaridades que é importante preservar é a diversidade dos estilos musicais alternativos. Por isso é preciso ficar alerta, pois aplicar a classificação de gênero musical aos estilos musicais alternativos e subculturais pode ser um discurso de destruição dessa diversidade.

H. A. Kipper, Julho 2009

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(1) Neste texto, o termo “estética” é usado no sentido de “significado da forma no discurso artístico/simbólico”, como o termo é usado na filosofia da arte e na crítica artística.

(2) Ou ethos; a grosso modo: conjunto de características de um grupo social.

(3) Discurso não é só palavra dita ou escrita: é música, roupa, visual, comportamento, pintura, escultura, produtos, poesia, etc.

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