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ENTREVISTA COM PAUL HODKINSON

Paul Hodkinson é um sociólogo britânico cujo trabalho é focado nas culturas jovens, comunicações online e nos relacionamentos entre mídia e identidades culturais. Ele é autor de “Media, Culture and Society” (2010) e “Goth. Identity, Style and Subculture”(2002). Ele também é co-editor de “Youth Cultures: Scenes, Subcultures and Tribes” (2007). Sua pesquisa recente é focada uso da comunicação online pelos jovens e no processo de envelhecimento entre os participantes de subculturas “jovens”. Ele tem a posição de “Senior Lecturer” no Departamento de Sociologia na Universidade de Surrey, em Surrey, Reino Unido.

Kipper entrevistou-o especialmente para o Gothic Station sobre esta última pesquisa acerca do envelhecimento entre participantes de subculturas “jovens”, mas também sobre outras questões muito interessantes relacionadas a cena gótica e os grupos (sub)culturais: 

GS: Um recente artigo seu abordou a questão “Envelhecimento e Cena gótica”. Quando chegamos a esse ponto, poderíamos considerar que a fluidez e multiplicidade de identidades na pós-modernidade – uma teoria quase hegemônica até alguns anos atrás- é- pelo menos- um fenômeno não generalizado?

Paul Hodkinson: Com certeza, acredito que a tendência crescente para algumas pessoas permanecerem envolvidas em (sub)culturas “jovens” aos 30 anos e depois disso sugere um nível de comprometimento e pertencimento que não é considerado pelas sugestões de que música e estilo são agora dominados pela fluidez e individualização. De fato, o que observei no caso de góticos mais velhos era muito mais um fenômeno coletivo. Embora as pessoas estivessem crescentemente comprometidas com suas carreiras, famílias, etc, elas frequentemente permaneciam fortemente identificadas com o Gótico como uma comunidade. E, mais interessante ainda, os mais velhos não eram nem um pouco solitários: partes da cena inglesa são crescentemente dominada pelos maiores de 30.

GS: Agora, em 2011, também no Brasil, podemos ver uma cena gótica com pessoas variando da adolescência até os 40 ou 50 anos de idade (eu mesmo tenho 41). Vemos as pessoas namorando, casando, se formando, desenvolvendo as mais variadas carreiras profissionais, e permanecendo conectadas à cena gótica. A mídia e o senso comum locais não perceberam isso completamente. Como você vê essa situação se desenvolvendo no Reino Unido e Europa? Os góticos são mais aceitos aí como algo que pode ser mais do que uma crise da adolescência?

Paul Hodkinson: Uma pergunta muito interessante. As imagens do góticos na mídia permanecem confusas no Reino Unido mas acredito que, pelo menos, as representações midiáticas estão gradualmente mudando do que anteriormente eram artigos baseados em  pânico moral sobre auto-mutilação ou adolescentes satânicos em direção a uma compreensão de que os góticos são com frequência bastante classe-média, focados nas suas carreiras profissionais e, às vezes, pessoas com valores familiares que em muitos casos já ultrapassaram seus anos de adolescência. O foco dessas representações (NT: da mídia) frequentemente é na surpresa/fascinação de que estilos subculturais aparentemente diferenciados/rebeldes podem algumas vezes ser o aspecto exterior do que são as vezes vidas e identidades relativamente comuns em outros aspectos. Isso é algumas vezes um ponto de desconforto para próprios góticos, é claro- acredito que as pessoas querem pensar sobre suas identidades subculturais como algo que envolve diferenciação e, talvez, um grau de oposição às formas dominantes de fazer as coisas, mas isso pode às vezes se tornar mais difícil quando você tem filhos, carreiras profissionais e tudo o mais.

GS: Usualmente lemos sobre “subculturas juvenis” ou “estudos subculturais juvenis”. Essa classificação de todo desvio como um fenômeno “jovem” não apontaria para algum tipo de pré-conceito que considera que “crescer” e se tornar maduro seignifica se encaixar em algum tipo de “normalidade”? Isso também levanta muitas questões sobre o que, afinal, “ser jovem” significa afinal, não é mesmo?  

Paul Hodkinson: Acredito que essa questão dialoga com minha resposta anterior e, sim, eu realmente acredito que há uma tensão aí. Resumindo, há uma pressuposição na qual a juventude constitui um período temporário de rebelião seguido por uma eventual acomodação em uma vida adulta normal. A pressuposição é que pessoas jovens são capazes de vivenciar a rebelião cultural de uma forma que os adultos, com suas responsabilidades maiores, não são. Isto dificulta como entender as coisas quando pessoas mais velhas continuam a manter uma forte conexão com as subculturas aparentemente “jovens” ou “joviais”. Essas pessoas deveriam ser vistas como se agarrando a sua juventude, como falhando em crescer ou como em negação de suas crescentes realidades adultas? Eu tendo a discordar desta interpretação como um todo. Há um elemento de juventude na participação dos mais velhos em cenas como a gótica (ainda envolve sair, beber, montar um visual e tudo mais), mas frequentemente a participação das pessoas se adapta e muda na medida em que elas envelhecem- elas encontram formas de permanecerem envolvidas que são compatíveis com suas vidas adultas. Assim, pensaria a continuidade da participação mais como um acompanhamento de formas especiais de vida adulta, e não como uma fixação na adolescência.

 GS: Dez anos atrás (2002) você publicou “Goth: Identity, Style and Subculture”, baseado em suas pesquisas nos anos anteriores. Se naquele momento a subcultura gótica estava ainda vida e crescendo, a última década mostrou um florescimento ainda maior, uma disseminação de estilos gótico e novas apropriações subculturais. Todos esses desenvolvimentos confirmaram suas descrições anteriores?

Paul Hodkinson: Acredito que a natureza, tamanho e significância da cena gótica em diferentes partes do mundo, até um certo ponto, e a continuidade da relevância dos meus escritos de dez anos atrás, seriam provavelmente diferentes em diferentes países. No Reino Unido, acredito que a principal diferença de quando fiz minha pesquisa é que a média de idade da cena gótica cresceu radicalmente pois muitas pessoas continuaram envolvidas depois dos trinta e dos quarenta anos, enquanto o recrutamento de novos adolescentes parece ter se reduzido um pouco. Também, muitas das pessoas que se ligam aos visuais e sons góticos tendem a se tornar envolvidos em cenas relacionadas, como a emo, e não tem necessariamente tanta conexão com a versão da cena gótica que foi e é o foco de minha pesquisa. Apesar disso, há vários elementos das minhas descobertas que ainda acredito válidos-  por exemplo a importância da identidade coletiva, comprometimento, hierarquias de estatus, a importância de diferentes formas de mídia (embora aqui as redes sociais fizeram uma grande diferença, é claro) e a forma claramente translocal pela qual a cena funciona. A principal diferença para os góticos mais velhos, porém, é que seu nível de comprometimento prático tende usualmente a se reduzir ao menos um pouco – assim, as pessoas nos seus trinta ou quarenta anos saem menos frequentemente, não ficam fora mais até tão tarde e fazem um visual de estilos levemente menos extremos do que os que faziam quando eram mais jovens. O senso de identificação com a cena, todavia, parece frequentemente permanecer muito forte.

para conhecer mais o trabalho de Paul Hodkinson, visite seu site pessoal:
http://www.paulhodkinson.co.uk/

Jan. 2012

 

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