A Happy House in a Black Planet: Introdução à Subcultura Gótica
Novos Artigos sobre a Subcultura Gótica

ETNOFOBIA: DEMONIZAÇÃO DA IDENTIDADE CULTURAL NO DISCURSO PÓS-MODERNO

RESUMO
Analisamos demonização do termo “Etnocentrismo” pelo discurso pós-modernista. Buscamos demonstrar como este discurso deprecia os conceitos de cultura e identidade cultural em seu programa ideológico coerente com o capitalismo tardio. Consideramos a existência uma nova forma de colonialismo cultural embasado no discurso pós-moderno e de globalização cultural, um colonialismo que equaliza e homogeneiza diferenças e alteridades e pode ser uma das origens das regressões fundamentalistas e xenofóbicas do começo do século XXI.

Etnocentrismo: etnocídio x etnofobia

            A palavra “etnocentrismo”, cunhada no contexto do debate acadêmico, caiu no uso cotidiano. (CLASTRES, 1982, p. 52). Pierre Clastres descreve a diferença entre etnocentrismo, etnocídio e genocídio. “Denomina-se etnocentrismo a vocação para julgar as diferenças a partir da sua própria cultura.” Por outro lado, “o termo etnocídio acena não para a destruição física dos homens (neste caso permaneceríamos na situação genocidária), mas para a destruição de sua cultura.” Assim, “o ocidente seria etnocidário porque é etnocentrista. Porque se pensa e quer ser 'a' civilização.” (CLASTRES, 1982, p. 55).

            Aqui é importante ter claro a diferença entre dois conceitos de cultura e o de civilização. O destaque que Clastres coloca no artigo definido “a” antes de civilização indica que o problema é o ocidente considerar que sua cultura é a ponta de lança do processo de civilização. Não é mais necessário argumentar contra essa ideia na sua forma passada. Nossa intenção aqui é apenas deixar claro que cultura não é um termo singular nem é sinônimo de civilização. A antropologia já nos ensinou que culturas diversas muitas vezes se desenvolvem em direções opostas. O que é avanço para uma pode parecer regressão aos olhos de outra. Temos um exemplo no trecho abaixo de Davi Kopenawa Yanomami:

"Os brancos são engenhosos, têm muitas máquinas e mercadorias, mas não têm nenhuma sabedoria. (…) Quando viajei para longe, vi a terra dos brancos, lá onde havia muito tempo viviam seus ancestrais. Visitei a terra que eles chamam de Eropa.(...) eles acabaram com suas florestas e sujaram seus rios. Agora só bebem água 'embrulhada', que precisam comprar. (…) o pensamento dos brancos está cheio de vertigens, (…) Eles não fazem mais que dizer 'Estamos muito contentes de rodar e de voar! Continuemos! Procuremos petróleo, ouro e ferro! Os Yanomami são mentirosos!' (…) Seu pensamento está cheio de esquecimento. Eles continuam a fixá-lo em suas mercadorias como se fossem suas namoradas" (YANOMAMI, 1999, p. 15-21).

            Também é preciso ter clara a distinção entre Cultura como sistema cultural de um grupo social e cultura como erudição ou acúmulo de conhecimento. Apenas por motivos de clareza, neste texto grafaremos a primeira com letra maiúscula. {

            Clastres nos explica que o etnocídio não é resultado direto nem do etnocentrismo nem é resultado mecânico de todas as Culturas. Mas, isto sim, o etnocídio seria uma necessidade que surge em determinado tipo de sociedade e em dados contextos históricos. “Pertence à essência da Cultura ser etnocentrista, na medida exata em que toda Cultura se considera como a Cultura por excelência. Em outros termos, a alteridade não é jamais apreendida como diferença positiva, mas sempre como inferioridade sobre um eixo hierárquico.” Mas “se toda Cultura é etnocentrista, somente a ocidental é etnocidária. Decorre daí que a prática etnocidária não se articula necessariamente com a convicção etnocentrista, senão toda Cultura seria etnocidária.” Então “o que faz com que a civilização ocidental seja etnocidária?” E “Pode-se colocar legitimamente (…) Ocidente como Cultura etnocidária, como sociedade de Estado? Se fosse assim, compreender-se-ia por que as sociedades primitivas podem ser etnocentristas sem serem por isso etnocidárias, pois são precisamente sociedades sem estado.” (CLASTRES, 1982, p. 53-62).

            Mas todos os tipos de estado são iguais?

"O que contém a civilização ocidental, que a torna infinitamente mais etnocidária que qualquer outra forma de sociedade? É seu regime de produção econômica, (…) seja ele liberal e privado como na Europa do Oeste, ou planificado, de Estado, como na Europa do Leste. A sociedade Industrial (…) é por isto mesmo a mais assustadora máquina de destruição. Raças, sociedades,, indivíduos, (…) natureza (...) tudo. (…) A escolha deixada a essas sociedades era um dilema: ou ceder à produção ou desaparecer; ou o etnocídio ou o genocídio." (CLASTRES, 1982, p. 61).

             Vemos, assim, que não são todos os tipos de Cultura e sociedade que precisam praticar o etnocídio ou o genocídio. Culpar a cultura ou a identidade grupal ou comunitária pelos males do genocídio ou etnocídio seria o mesmo que culpar a vida pela existência de doenças: simplesmente tira o foco de atenção das causas específicas.

            Podemos considerar a hipótese de que na segunda metade do século XX o discurso etnofóbico avança também como função ideológica de um processo de industrialização (terceira fase) e capitalismo de consumo (seja ela de modelo estatal centralizado ou liberal descentralizado, pois vemos tanto China quanto Venezuela avançarem como “global players”). Este processo chegaria ao extremo no final do século passado. Cabe lembrar que o papel do conceito de cultura é totalmente diferente na sociedade do capitalismo de produção (ex: século XIX e começo do século XX) e do capitalismo de consumo e descarte (segunda metade do século XX e começo do século XXI). Porém estas fases dependem dos estágios de desenvolvimento e peculiaridades locais ao redor do globo. No Brasil, por exemplo, vemos pontos de capitalismo de consumo ou descarte ao lado de realidades do capitalismo de produção e muitas vezes um tecido social permeado por realidades e valores pré-modernos.  

            Mas antes de considerar a validade desta hipótese, vamos analisar alguns exemplos do discurso etnofóbico e antiidentitário.

Ataque ao conceito de cultura

      Terry Eagleton define pós-modernidade como:

"uma linha de pensamento que questiona as noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, a idéia de progresso ou emancipação universal, os siste­mas únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação. Contrariando essas normas do iluminismo, vê o mundo como contingente, gratuito, diverso, instável, imprevisível, um con­junto de culturas ou interpretações desunificadas gerando um certo grau de ceticismo em relação à objetividade da verdade, da história e das normas, em relação às idiossincrasias e a coerência de identidades" (EAGLETON, 1998, p. 7).

Esta linha de pensamento estaria relacionada à mudanças concretas no ocidente que emergiram concomitantemente à uma nova forma de capitalismo e de indústria cultural no final do século XX (EAGLETON, 1998, p. 7). Também Fredric Jameson (2002) e David Harvey (2005) descrevem minuciosa e extensamente como o discurso Pós-Moderno é a expressão ideológica do capitalismo tardio ou do também chamado capitalismo pós-industrial.  Com o deslocamento de uma ética do trabalho para uma ética de consumo e descarte, os valores sociais e de identidade passam a ser os da transitoriedade, flexibilidade, inconstância, efemeridade, fragmentação, ausência de regras, de padrões e de limites. O capitalismo de consumo adota os valores do hedonismo transfigurado em cartões de crédito sem limites e valores sociais claramente homólogos ao capitalismo de capital especulativo e ao consumismo de descarte. Terry Eagleton comenta que “O pós-modernismo, em suma, rouba um pouco da lógica material do capitalismo avançado e a volta agressivamente contra seus funda­mentos espirituais” (EAGLETON, 1998, p. 129). Mas essa liberalidade de consumo e crédito não corresponde automaticamente a um liberalismo nas relações humanas, abertura ao diálogo e no reconhecimento do outro:

"Apesar de toda a sua tão alardeada abertura para o Outro, o pós-modernismo pode se mostrar quase tão exclusivo e crítico quanto as ortodoxias a que ele se opõe. Pode-se, em geral, falar da cultura humana mas não da natureza humana, de gênero mas não de classe, do corpo mas não da biologia, de fruição mas não de justiça, do pós-colonialismo mas não da burguesia mesquinha. Trata-se de uma heterodoxia de todo ortodoxa, que como qualquer forma imaginária de identidade precisa de seus bichos-papões e alvos imaginários para manter-se na ativa. (…) Embora inspire-se no espírito crítico, raras vezes o usa para tratar das próprias proposições" (EAGLETON, 1998, p. 34-35).

            O discurso pós-moderno busca se opor a uma modernidade que ele mesmo forja (Eagleton, Jameson, Harvey), de forma semelhante a que o discurso do Renascimento e do Iluminismo rejeitavam uma idade Média que era unificada exatamente por seus discursos.

Mas a modernidade apresenta as características que a Pós-Modernidade lhe imputa?

            Por exemplo, Bauman estabelece que “a noção de Cultura foi cunhada segundo o modelo de fábrica de ordem” (BAUMANN, 1998, p. 163). A descrição de Cultura da modernidade que o autor faz se parece muito com uma fábrica fordista, tanto que este é um exemplo usado por ele. Em substituição a esta Cultura, propõe uma nova metáfora: em vez de Cultura, uma “cooperativa de consumidores” (BAUMANN, 1998, p. 168). Compreende-se o subtexto: o Mercado seriam hoje a única Cultura válida e as Culturas locais deveriam ser apenas culturas com c minúsculo, todas igualmente niveladas na sua insignificância. Um multiculturalismo de igualdade negativa, como veremos adiante.

            Mas teria sido a Cultura no Iluminismo ou Modernidade um homogêneo conceito de “fábrica de ordem”? Seriam a modernidade, o iluminismo e o capitalismo entidades homólogas?

            Ellen Wood comenta que “tornou-se o auge da moda atacar o chamado projeto iluminista. Supõe-se que os valores iluministas (…) estejam na raiz dos desastres que abalaram a humanidade ao longo de todo este século', (…) das guerras mundiais e do imperialismo até a destruição ecológica.” E acrescenta que “estamos sendo solicitados a jogar fora tudo o que há de melhor no projeto iluminista- especialmente seu compromisso com a emancipação humana universal- e a responsabilizar esses valores pelos efeitos destrutivos que deveríamos atribuir ao capitalismo” (WOOD, 2001, p. 120).

            Assim, a estratégia retórica contra a cultura e as identidades culturais ressaltada por Clastres no caso do uso indevido do termo etnocentrismo, aparece como um exemplo de uma estratégia geral de um discurso ideológico que usa este argumento sistematicamente, acusando o projeto modernista de todos estes males.

Cavalo de tróia: o que este conflito esconde?

            Mas o que o discurso pós-moderno busca esconder? Que é -em sua totalidade- uma parte da modernidade. Mas qual parte?

            Todorov, em “Nós e os Outros” (1993, p. 32-41) já descreve as diferenças entre as correntes Humanistas e Cientificistas no seio do Iluminismo. Ellen Wood (2001) salienta também que “a idelogia burguesa francesa do século XVIII teve pouco a ver com o capitalismo e muito mais com as lutas em torno de formas não capitalistas de apropriação”. (WOOD, 2001, p.118)

            Já a Inglaterra estava “em meio a um processo de criar um capitalismo industrial”. Todavia, “quais eram as expressões culturais características do capitalismo inglês no mesmo período? Não o racionalismo cartesiano e o planejamento racional, mas a 'mão invisível'.” Pois “a ideologia (…) que distiguiu a Inglaterra (…) foi (…) a ideologia do 'melhoramento': não a idéia iluminista do aperfeiçoamento da humanidade, mas o melhoramento da propriedade, a ética (…) do lucro.” Assim, “se quisermos procurar as raízes de uma 'modernidade' destrutiva- digamos, a ideologia do tecnocentrismo e da degradação ecológica- podemos buscá-los no projeto do 'melhoramento', na subordinação de todos os valores humanos à produtividade e ao lucro, e não no iluminismo.” Portanto, “a idéia de pós-modernidade deriva de uma concepção da modernidade que, no que tem de pior torna o capitalismo historicamente invisível, ou, para dizer o mínimo, torna-o natural” (WOOD, 2001, p. 113-123). 

            Não se trata, assim, de uma questão do indivíduo estar preso a uma Cultura ou a uma identidade, em oposição a um indivíduo supostamente livre e sem Cultura. Trata-se de uma luta política e ideológica entre dois (ou mais) tipos de Cultura e de Civilização. E de uma defesa, por parte do discurso pós-moderno, de uma nova forma de civilização que precisa eliminar as demais Culturas como entidades geradoras valores e significados.

            Mas como se dá este novo colonialismo Cultural, que paradoxalmente, ostenta um discurso de diversidade e sincretismo cultural?

"O neoliberalismo, com sua ênfase no mercado e no consumo, não é apenas uma questão econômica, é uma nova forma de civilização. A atual impossibilidade ou falta de credibilidade de histórias universais ou mundiais não é postulada por uma teoria pós-moderna, mas pelas forças econômicas e sociais a que geralmente nos referimos como globalização" (MIGNOLO, 2003, p. 47)

            O etnocídio praticado pelo colonialismo tradicional visava destruir (ou “civilizar”) outras Culturas de forma material e grosseira. Porém, nos últimos 50 anos ou mais, os centros mais avançados da Cultura econômico-industrial já realizaram no seio de suas próprias sociedades uma cisão e redução da esfera da cultura para um campo não significativo, reduzido apenas a entretenimento, lazer ou erudição.

            Por isso hoje temos acesso a todos os livros e produção cultural, mas ela nos desperta pouco ou nenhum interesse. 

            Assim, a igualdade que a civilização industrial-econômica estabelece como “vantagem” para Culturas historicamente subalternas, é um cavalo de tróia. Essa igualdade entre Culturas é oferecida exatamente no momento em que a Cultura dos países da vanguarda industrial já foi reduzida a apenas cultura, a não valor e não-significado pelo seu próprio novo modelo de Cultura Economificada. O que vem na barriga desse cavalo? O modelo de cisão das esferas de conhecimento com estabelecimento da esfera econômica como valor único e central de articulação e significado.

            Esta é a nova Cultura e civilização colonialista que busca abarcar o globo com suas estruturas e narrativas. Isso é “ser civilizado” hoje e o discurso pós-moderno é a ponta de lança deste novo processo “civilizatório” do novo colonialismo global. Um colonialismo sem nações. Seguem-se as novas cruzadas contra as “primitivas” sociedades de Cultura integrada e “indivíduos atrasados” de identidades definidas e peculiares. Pois para a pós-modernidade as Culturas se tornaram algo primitivo, algo para se visitar no museu ou no zoológico: temos aí o retorno de um discurso teleológico.

            Porém, em oposição ao discurso de eliminação das narrativas universais que buscam esconder a existência de uma única narrativa global que pela sua hegemonia já se naturalizou tanto que não precisa mais ser enunciada, existe

"a forte necessidade de construir macronarrativas na perspectiva da colonialidade. Essas narrativas não são a contrapartida da história mundial ou universal (…) mas uma ruptura radical com tais projetos globais. Não são (…) nem narrativas revisionistas nem narrativas que pretendam contar uma verdade diferente, mas, sim, narrativas acionadas pela busca de uma lógica diferente" (MIGNOLO, 2003, p. 47). 

            Como, por exemplo, a narrativa de Davi Yanomani citada anteriormente.

Novas formas de controle: a colonização sem cultura

            Até os anos de 1970, aprendemos a considerar natural ser da natureza do poder homogeneizar os grupos que controla. Vimos isso na formação do estado-nação capitalista ocidental. Todavia, nos últimos 40 anos a sociedade industrial entrou em nova fase. Neste “mundo pós-industrial onde os consumidores são incitados a individualizarem-se e onde as operações de poder parecem favorecer a classificação e a segregação, é difícil ver a diferença como necessariamente progressiva.” (THORTON, 1995, p. 191)

            Se o poder moderno se dava pela homogeneização, já o poder e o controle social pós-moderno é exercido pela compulsoriedade da mudança e educação para que todos se transformem em “coletores de sensações” (Baumann) de forma relaxada e bem humorada em uma “sociedade humorística” (Lipovetsky). O hedonismo (quando ligado a um tipo específico de sujeito, como veremos adiante), junto ao consumismo, anomia e descartabilidade, são as várias faces da nova forma de controle social.  

            As formas de controle sociais contemporâneas buscam privar os indivíduos da capacidade de constituir discursos significativos grupais e historicamente embasados. Ao mesmo tempo que a Cultura economificada padroniza a estrutura das sociedades ao redor do globo -tanto em relação a modos de produção quanto e relação a concepção de cultura como uma esfera não significante- o mercado implanta um sistema de mudança compulsória que permite uma fantasia de mudança e identidade individual. O indivíduo pode consumir roupas ou cultura indiana, brasileira, tailandesa, russa ou francesa, comer em fast-foods de todas estas nacionalidades e encontrar livros de autores destas origens na livraria mais próxima. Também pode mudar de discurso e moralidade a qualquer instante, mas esta multi-culturalidade é equalizada e homogeneizada:

"Forjada como um recurso do gosto ocidental, a equalização se transforma em um procedimento de hibridização tranquilizadora, redução dos pontos de resistência de outras estéticas musicais e resistência aos desafios que trazem culturas diferentes. Sob a aparência de uma reconciliação amável entre culturas, se esconde a simulação de que podemos estar perto dos outros sem nos preocuparmos em entendê-los. (...) como tantas superproduções cinematográficas transnacionais, a equalização é na maioria das vezes uma tentativa de climatização monológica, de acomodamento acústico em meio ao estrondo do mundo." (CANCLINI, 2009)

            O que é dito sobre música, pode ser estendido a toda lógica cultural e ideológica.  O indivíduo pós-moderno já tem uma outra Cultura, que julga ser a Civilização, que lhe faz acreditar que nada disso tem importância, a não ser como lazer, ou outro tipo de produto. O máximo que pode fazer, realmente, é se identificar com alguma “cooperativa de consumidores” (Bauman).

            O novo colonialismo global exporta um conceito de Civilização (uma Cultura) ou sociedade em que toda produção cultural -além de não significativa- é também equalizada e homogeneizada. E, por isso, mantida em uma esfera separada e submetida ao nexo único do valor econômico. 

            O conceito de “cultura” não interessa mais para a vanguarda do desenvolvimento econômico capitalista. Os valores culturais do capitalismo tradicional (de produção) são algo que a ideologia do capitalismo atual (de consumo e descarte) procura combater. Nada estorva mais o capitalismo -ou o socialismo avançados- de consumo do que a lógica de apego a qualquer valor que não o valor econômico acelerado e cambiante. Sem dúvida, do ponto de vista do colonizador que visa converter todos os “índios” do mundo a sua única “Cultura Civilizada”, a resistência destes aparece como lamentavelmente “reacionária”. 

            Neste sentido, Zizek descreve o multiculturalismo como a expressão ideológica do atual capitalismo global: 

"essa atitude que, a partir uma posição global oca, trata todas e cada uma das culturas locais da mesma forma que o colonizador costuma tratar seus colonizados: “autóctones” cujos costumes deve-se conhecer e 'respeitar'. A relação entre o velho colonialismo imperialista e a atual auto-colonização do capitalismo global é a mesma que existe entre o imperialismo cultural ocidental e o multiculturalismo. Da mesma forma que o capitalismo global supõe o paradoxo da colonização sem Estado-Nação colonizador, o multiculturalismo promove a distância eurocêntrica e/ou o respeito em relação às culturas locais não europeias. Isto é, o multiculturalismo é uma forma inconfessada, invertida, auto-referencial de racismo, um 'racismo que mantém as distâncias': 'respeita' a identidade do Outro, o concebe como uma comunidade 'autêntica' e fechada em si mesma, a respeito da qual ele, o multiculturalista, mantém uma distância assentada sobre o privilégio de sua posição universal. O multiculturalismo é um racismo que esvaziou sua própria posição de todos conteúdo positivo (o multiculturalista não é diretamente racista, pelo fato de não contrapor ao outro os valores particulares de sua cultura), mas, não obstante, mantém sua posição enquanto privilegiado ponto oco de universalidade a partir do qual ele pode apreciar (ou depreciar) as outras culturas"  (ZIZEK, 2008, p. 56-57).  tradução nossa.

            O mesmo processo que Zizek descreve no aspecto social e cultural, Freitas descreve na sua expressão individual eu/outro e psicológica: quando a diferença é o fundante, não há identidade para fundar uma relação de igualdade e respeito pela particularidades do outro como sujeito e 

"Na perspectiva oposta, a diferença é componente dialético da identidade. A identidade é incluída com parte da definição da diferença. Na realidade, não há identidade sem diferença nem diferença sem identidade. Ou seja, o indivíduo é produto desta dialética que resulta na sua particularidade. O que se reivindica para o indivíduo não é a pura diferença (que fragmenta) mas sua particularidade (que une, porque expressa a sua diferença na identidade). As particularidades podem  expressar mais diferença ou mais identidade ante outras particularidades, mais ou menos contradição e eventualmente até antagonismos. A ideia de que o idêntico reprime o diferente subestima  e exclui o sujeito (e sua subjetividade) da construção de sua própria particularidade e termina sendo um mecanismo de justificação do individualismo, abrindo igualmente uma via de justificação para o autoritarismo" (FREITAS, 2004, p. 141). 

            Em ambos os níveis vemos a destruição ou negação da particularidade da identidade. A diferença como fundante é apenas uma paráfrase do vazio colonizador do multiculturalismo. Ambos tem a incapacidade de se relacionar com o outro como sujeito com suas particularidades, exatamente pela incapacidade de estabelecer uma verdadeira relação dialética. A incapacidade de verdadeiro antagonismo é sintoma desta situação.

            Longe de ser uma “psicologização”, que nega processos sociais e econômicos materiais, esta constatação visa apenas apontar que modelos sociais e econômicos produzem e são reproduzidos -em massa- por discursos ideológicos constituintes de traços psicológicos que se manifestam em toda população destas... Culturas. Traços e discursos que, se não são homólogos àqueles modelos sócio-econômicos, pelo menos são convenientemente complementares e divulgados pelo discurso ideológico destas Culturas ou Ideologias como “naturais” ou “saudáveis”.  

            Fica a pergunta: então, o que pode fundamentar o ódio homicida (ou etnocida) ao outro?   

O oco e a apatia do sujeito pós-moderno

            O modelo sócio-econômico nos dá uma resposta parcial. Este modelo tem produzido um tipo de sujeito que produz um discurso incongruente, em uma fala multiculturalista que pode sustentar um isolamento e ódio ao diferente. Para tentar elucidar este paradoxo, podemos relacionar duas ideias de Eugène Enriquez: “A renovação do individualismo tem por fim suprimir o sujeito e a vida interior” (ENRIQUEZ, 1994, p. 42) e “o ódio inconsciente de si é projetado sobre os outros, donde um desenvolvimento da xenofobia e do racismo.” (ENRIQUEZ, 1994, p. 49). Enriquez nos explica:

"Esse ódio inconsciente de si vai ser tão forte que os indivíduos não poderão se representar como causas de si próprios (...) quando os indivíduos estão nesta situação, (...) por um processo de contra investimento, são aprisionados em fantasias de ‘renascimento e de auto-engendramento de tonalidade megalomaníaca". (ENRIQUEZ, 1994, p. 50)

            Podemos ter aí o modelo de sujeito que sustenta os sintomas de xenofobia e eugenia na pós-modernidade, intimamente ligados aos sintomas de anomia e hedonismo. Estes dois últimos termos seriam um prêmio e sinais de liberdade para um indivíduo com uma interioridade estruturada, mas, em um contexto sócio-econômico que exige a criação de identidades compactas que sejam totalmente mutantes, submissas e exteriormente pragmáticas, essa anulação de-si só é suportada pela compensação sádica do ódio ao outro que é o que é (ódio aquilo de que somos privados) e um consumismo e hedonismo compensatórios. (ENRIQUEZ, 1994, p. 41-55)

            Assim, o discurso pós-moderno de “cultura como conceito reacionário” e de “identidades definidas como malignas” pode ser lido como um discurso ideológico que busca criar uma justificação ou racionalização para um modelo de indivíduo adequado e submisso ao modelo de sociedade industrial e economificada contemporânea, baseada na descartabilidade e consumismo. Também podemos entender melhor o recrudescimento de radicalismos e movimentos xenófobos exatamente no seio de sociedades que teoricamente estão adotando o discurso multiculturalista pós-moderno.

            Como já foi dito, da mesma forma que o modelo de estado industrial destruiu primeiro as culturas dos grupos sociais para depois exportar um modelo economificado de igualdade cultural “cavalo de troia” em que a cultura não importa (é substituída pela cultura “igualitária” industrial-consumista), também a igualdade com o outro existe em um contexto em que primeiro o eu já não existe senão como exterioridade. Nas palavras de Eugène Enriquez:

‘Apagar, destruir toda possibilidade de ser tocado’ (M. Enriquez), tal é o ser apático que é movido não somente pelo processo de contra-investimento (...) mas igualmente por um processo de desinvestimento letal que visa, como escreve P. Auligner, ‘à destruição da atividade de ligação e de articulação de sentido’. Compreende-se, então que todos aqueles que buscam articular sentidos, todas as 'minorias ativas', todos os ‘exotas’, todos os ‘marginais’, todos os ‘estrangeiros’ (…) possam se tornar objeto de ódio ou, pelo menos, de desprezo por parte de todos que vivem na certeza e não na ‘perturbação de pensar’ (ENRIQUEZ, 1994, p. 50-51)
 
            Assim, a igualdade oferecida ao outro é apenas outro cavalo de troia: um rebaixamento ao mesmo nível de não-identidade e submissão que eu, do mesmo tipo que a igualdade cultural pós-moderna oferece para as culturas peculiares. Obviamente, se outro insistir em “ser” e não se submeter a mesma anulação identitária que já aceitei e suporto, ele merecerá todo meu ódio. 

Considerações finais

            Da reflexão aqui desenvolvida podemos inferir que o etnocentrismo, as culturas integradas, as identidades culturais ou individuais e peculiares não podem ser consideradas causas diretas, únicas ou principais de fenômenos como o etnocídio, o genocídio ou o ódio aniquilador ao outro. Ao mesmo tempo percebemos que o etnocídio, genocídio ou ódio aniquilador do outro são também possíveis e, talvez, até mais prováveis, em um mundo de valores economificados sob a hegemonia do discurso anti-cultura e anti-identidade. 

Também, apesar das identidades nacionais desenvolvidas no estado-nação -como ele existiu na fase anterior da industrialização- terem beneficiado o consumo de massa, não podemos mais nem dizer que todo tipo de identidade cultural serviu historicamente a formas de capitalismo, nem considerar que hoje as identidades culturais ainda sirvam a tal propósito, visto que a fase contemporânea do capitalismo de consumo se baseia mais na mudança, diferenciação e em um consumidor sem caráter ou identidade definidos.

As tentativas de relacionar culturas e identidades integradas com os males do etnocídio, do fascismo ou do capitalismo são hoje mais recursos retóricos usados para forjar um discurso de distração e de retirada do foco de discussão das causas e contextos específicas destes fenômenos.

H. A. Kipper, dezembro de 2011
  

Referências bibliográficas:

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