A Happy House in a Black Planet: Introdução à Subcultura Gótica
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CULTURAS E SUBCULTURAS NUNCA ESTÃO “PRONTAS”

Existem dois tipos principais de mudança em uma cultura: os motivados internamente e os motivados (ou impostos) externamente. No primeiro caso, da motivação interna, imagine se por um acidente histórico se uma sociedade de habitantes indígenas da América tivesse permanecido isolada desde 1400 até hoje sem colonização de nenhum tipo. Ela não estaria igual à 500 anos atrás: teria continuado a mudar e a evoluir coerentemente de acordo com seus valores e dinâmicas internas. Ou seja: mesmo uma cultura mantida em um estado ideal de “pureza” mudaria com o tempo. (R. B. Laraia, 2009)

Fenômeno semelhante ao que acontece com as línguas, mesmo a mais “pura”: o Inglês ou Português de hoje são diferentes de 500 ou 200 anos atrás, mas continuam sendo Inglês ou Português, mesmo tendo absorvido e deglutido palavras e expressões de outras línguas, inserindo-as no sistema do Português e do Inglês. Este seria um exemplo de mudança por contato com fatores externos. Podemos compará-lo com o que acontece com uma uma cultura ou subcultura ao “deglutir” e resignificar elementos isolados de outras culturas, mantendo, todavia, a coerência própria de seu sistema.

Também, ninguém em sã consciência sustentaria que o “verdadeiro brasileiro” é só o do século XVIII, sendo o brasileiro do século XX e XXI “deturpações ou descaracterizações”. Várias características culturais que temos como brasileiros hoje foram consolidadas no século XVIII, mas estas características foram adquirindo novas formas de expressão, e incorporando outros elementos. Seria absurdo querer que os brasileiros de hoje vivessem como os brasileiros do século XVIII ou XIX para provar que são “verdadeiros brasileiros”. Ignoraríamos, por exemplo, Portinari, Carlos Drummond e Guimarães Rosa, etc. Mesmo o carnaval e o futebol são fenômenos historicamente recentes na cultura brasileira (final do século XIX e começo do XX).

Logo não faz sentido dizer que o “verdadeiro gótico” é só o dos anos 80, tanto no sentido de estilo musical quanto de modelo de cena subcultural. Da mesma forma que a cultura brasileira continuou evoluindo e absorver novos elementos ao longo dos séculos sem deixar de ser brasileira, também a subcultura Gótica continuou a evoluir e absorver novos elementos nos últimos 20 anos sem deixar de ser Gótica.

Uma cultura ou subcultura nunca está pronta, principalmente no caso de culturas jovens como a brasileira ou subculturas ultra-novas como a subcultura Gótica (só 30 anos). Vários elementos novos da cultura brasileira tem em torno de 100 anos e ainda estão em processo de mistura e re-significação dentro do sistema cultural que já existia. O mesmo pode ser dito do Gótico, que continuou e continua incorporando novos elementos. Poderíamos talvez dizer apenas que em certos momentos uma cultura ou subcultura está mais ou menos consolidada ou definida.

Isso não significa confundir características de uma cultura com as de outra. Nem com consumo de “cultura erudita” estrangeira, algo que não muda nossas características culturais: consumir música alemã ou pintura francesa ou literatura russa não faz com que deixemos de ser culturalmente brasileiros. Seremos apenas brasileiros “cultos”, e não alemães, franceses ou russos.

Importante também não confundir evolução de uma cultura com avanço tecnológico. Tecnologia não é sinônimo de cultura. Culturas com “menos” tecnologia (ou tecnologias baseadas em valores diferentes) possuem sistemas culturais tão complexos quanto as outras.

Por isso não devemos nos preocupar com as atualizações na forma do discurso(2) da subcultura Gótica através de elementos que não existiam ainda nos anos 80: isso só prova que esta subcultura está viva. Se permanecesse extamente igual à origem, seria apenas revival de uma cultura ou subcultura morta.

Saindo da questão antropológica: é natural de toda geração idealizar a época de sua juventude, independente do presente ser melhor ou pior. Mas isso já é questão psicológica que fica para outro artigo. ;-)


H. A. Kipper, Novembro de 2010


(R. B. Laraia) Cultura: um conceito Antropológico, Roque de Barros Laraia, Ed. Zahar, 2009

(2) pela Análise do Discurso (AD), tudo é discurso, não só a fala, música e o texto escrito: é discurso a roupa, a fala, o comportamento, o som, etc. (Análise do Discurso: princípios & procedimentos – E. P. Orlandi, 8a ed. 2009). Ponto de vista semelhante em alguns aspectos ao ramo da Filosofia conhecido como Estética, que estuda o significado nas obras de arte.

alguns artigos relacionados:

SUBCULTURA GÓTICA: DISVERSIFICADA NO VISUAL E NA MÚSICA

C) Absorção de Elementos de Estilos Relacionados

3-A Homologia Subcultural, sua Flexibilidade e Evolução


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