A Happy House in a Black Planet: Introdução à Subcultura Gótica
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UMA CRÍTICA DA IDEOLOGIA PÓS-MODERNA

Terry Eagleton define pós-modernidade como:

"uma linha de pensamento que questiona as noções clássicas de verdade, razão, identidade e objetividade, a idéia de progresso ou emancipação universal, os siste­mas únicos, as grandes narrativas ou os fundamentos definitivos de explicação. Contrariando essas normas do iluminismo, vê o mundo como contingente, gratuito, diverso, instável, imprevisível, um con­junto de culturas ou interpretações desunificadas gerando um certo grau de ceticismo em relação à objetividade da verdade, da história e das normas, em relação às idiossincrasias e a coerência de identidades" (EAGLETON, 1998, p. 7).

Esta linha de pensamento estaria relacionada à mudanças concretas no ocidente que emergiram concomitantemente à uma nova forma de capitalismo e de indústria cultural no final do século XX (EAGLETON, 1998, p. 7). Também Fredric Jameson (2002) e David Harvey (2005) descrevem minuciosa e extensamente como o discurso Pós-Moderno é a expressão ideológica do capitalismo tardio ou do também chamado capitalismo pós-industrial.  Com o deslocamento de uma ética do trabalho para uma ética de consumo e descarte, os valores sociais e de identidade passam a ser os da transitoriedade, flexibilidade, inconstância, efemeridade, fragmentação, ausência de regras, de padrões e de limites. O capitalismo de consumo adota os valores do hedonismo transfigurado em cartões de crédito sem limites e valores sociais claramente homólogos ao capitalismo de capital especulativo e ao consumismo de descarte. Terry Eagleton comenta que “O pós-modernismo, em suma, rouba um pouco da lógica material do capitalismo avançado e a volta agressivamente contra seus funda­mentos espirituais” (EAGLETON, 1998, p. 129). Mas essa liberalidade de consumo e crédito não corresponde automaticamente a um liberalismo nas relações humanas, abertura ao diálogo e no reconhecimento do outro:

"Apesar de toda a sua tão alardeada abertura para o Outro, o pós-modernismo pode se mostrar quase tão exclusivo e crítico quanto as ortodoxias a que ele se opõe. Pode-se, em geral, falar da cultura humana mas não da natureza humana, de gênero mas não de classe, do corpo mas não da biologia, de fruição mas não de justiça, do pós-colonialismo mas não da burguesia mesquinha. Trata-se de uma heterodoxia de todo ortodoxa, que como qualquer forma imaginária de identidade precisa de seus bichos-papões e alvos imaginários para manter-se na ativa. (…) Embora inspire-se no espírito crítico, raras vezes o usa para tratar das próprias proposições" (EAGLETON, 1998, p. 34-35).

O discurso pós-moderno busca se opor a uma modernidade que ele mesmo forja (Eagleton, Jameson, Harvey), de forma semelhante a que o discurso do Renascimento e do Iluminismo rejeitavam uma idade Média que era unificada exatamente por seus discursos.

Mas a modernidade apresenta as características que a Pós-Modernidade lhe imputa?

Por exemplo, Bauman estabelece que “a noção de Cultura foi cunhada segundo o modelo de fábrica de ordem” (BAUMANN, 1998, p. 163). A descrição de Cultura da modernidade que o autor faz se parece muito com uma fábrica fordista, tanto que este é um exemplo usado por ele. Em substituição a esta Cultura, propõe uma nova metáfora: em vez de Cultura, uma “cooperativa de consumidores” (BAUMANN, 1998, p. 168). Compreende-se o subtexto: o Mercado seriam hoje a única Cultura válida e as Culturas locais deveriam ser apenas culturas com c minúsculo, todas igualmente niveladas na sua insignificância. Um multiculturalismo de igualdade negativa, como vimos no artigo “Etnofobia”.

Mas teria sido a Cultura no Iluminismo ou Modernidade um homogêneo conceito de “fábrica de ordem”? Seriam a modernidade, o iluminismo e o capitalismo entidades homólogas?

Ellen Wood comenta que “tornou-se o auge da moda atacar o chamado projeto iluminista. Supõe-se que os valores iluministas (…) estejam na raiz dos desastres que abalaram a humanidade ao longo de todo este século', (…) das guerras mundiais e do imperialismo até a destruição ecológica.” E acrescenta que “estamos sendo solicitados a jogar fora tudo o que há de melhor no projeto iluminista- especialmente seu compromisso com a emancipação humana universal- e a responsabilizar esses valores pelos efeitos destrutivos que deveríamos atribuir ao capitalismo” (WOOD, 2001, p. 120).



H. A. Kipper, dezembro 2011
             

referências bibliográficas:

BAUMANN, Zigmut. Modernidade líquida. Trad. Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: J. Zahar Ed.,  2000.

BAUMANN, Zigmut. O Mal-estar na pós-modernidade. Trad. Mauro Gama e Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: J. Zahar Ed., 1998.

EAGLETON, Terry. As ilusões do pós-modernismo. Trad. Elisabeth Barbosa. Rio de Janeiro: J. Zahar Ed., 1998.

HARVEY, David. A condição pós-moderna. Trad. Adail Ubirajara Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Loyola,  2005.

JAMESON, Fredric. Pos-Modernismo: a lógica cultural do modernismo tardio. Trad. Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática,  2002.

WOODS, Ellen Meiksins. A origem do capitalismo.Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: J. Zahar Ed., 2001

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