A Happy House in a Black Planet: Introdução à Subcultura Gótica
Novos Artigos sobre a Subcultura Gótica

GÓTICO no SÉCULO XXI : algumas correspondências entre o Gótico subcultural e o cânone literário Gótico

1. Introdução: 250 anos de Gótico sempre falando do presente
 
O gótico permanece necessário para a cultura ocidental pois o:

“uso do passado esvaziado em fantasmas simulacrais consequentemente permite que o neo-gótico seja preenchido com antiquados repositórios dentro dos quais os dilemas modernos podem ser ao mesmo tempo projetados e rejeitados. Consequentemente, Gótico tem sido há muito tempo um termo usado para para projetar preocupações modernas dentro de um passado deliberadamente vago, e até ficcionalizado.” (Hogle, 2002)

Podemos ver esse processo -de injetar questões insolúveis ou problemáticas da cultura dominante- tanto nos primeiros romances da tradição lieterária Gótica- como em “O Castelo de Otranto” de Walpole e “Vathek” de Beckford, e seus seguidores, como na estruturação da subcultura Gótica no final do século XX. A diferença é que a subcultura Gótica se apropriou e continua se apropriando de outros elementos do século XX e XXI e incluindo-os no esqueleto Gótico.

O Gótico como o conhecemos surge no imaginário do ocidente por meados do século XVIII. Já a subcultura Gótica emergiu nos anos 80 do século XX. Mas o movimento musical e subcultural que emergiu no começo da década de 1980 não assumiu o nome “Gótico” por mero acidente. Pois:

“O Gótico não é como as outras subculturas, pois ela se desenvolve não apenas a partir seus precedentes subculturais imediatos, mas também a partir de uma tradição de 250 anos, e ela (a subcultura Gótica) tem uma presença na cultura conteporânea que transcende seus participantes individuais e ultrapassa a presença de virtualmente qualquer outra subcultura até hoje.” (Spooner, 2012)
 
Por mais inusitado que possa parecer a uma análise mais apressada, o fato é que a metalinguagem usada no final do século XX por jovens de cabelo eriçado e maquiagem exagerada é estruturalmente a mesma feita por autores irreverentes e igualmente exagerados do século XVIII.

A diferença é que no final do século XX e começo do século XXI há mais repertório para servir a este propósito do que 100 ou 250 anos atrás. Assim, verificamos um imaginário social com um funcionamento estrutural semelhante que vem desde romance Gótico original (Final do século XVIII: Walpole, Beckford, Radcliffe...) atravessando e influenciando sucessivamente o Romantismo, seguindo pelo simbolismo, decadentismo e neo-gótico da segunda metade do século XIX, continuando no expressionismo do início do século XX, retornando nos Góticos do final do século XX e início do século XXI. Temos aproximadamente 250 anos de uma expressão estética resolvendo simbolicamente as mesmas questões em seus respectivos contextos históricos.

Assim, “A riqueza da longevidade da cultura Gótica é dependente de sua habilidade de canibalizar novos estilos e incorporá-los ao seu repertório (...)” (Spooner, 2012).
 
         Já tínhamos visto esta dinâmica analisada no capítulo C) ABSORÇÃO DE ELEMENTOS DE ESTILOS RELACIONADOS. Os góticos do século XX coletam e colam em sua estrutura estética Gótica elementos de sistemas estéticos não góticos da mesma forma que Horace Walpole criou sua estética “Gótica” a partir de elementos das origens mais incongruente do passado, e ainda –no caso de sua mansão- sobre um prédio não-gótico.

Walter Scott (autor de “Os Três Mosqueteiros”) em um ensaio em que comenta a influência de Walpole sobre ele, comenta sobre o romance “O Castelo de Otranto”: “se assemelharia a uma roupa moderna, decorada artificialmente com ornamentos antigos”. (Walter Scott).

 O mesmo que Walpole fez com sua mansão e góticos fazem até hoje, mantendo o estilo atualizado e continuamente comentando o presente através e uma estética de bricolagem que faz questão de deixar claras suas montagens, excessos e “mau gosto” programático. Essa estética Gótica faz tanto sentido como oposição à contenção e limpeza do Classicismo (no século XVIII), ao positivismo e racionalismo do Realismo no século XIX, quanto em relação às estéticas clean e cool dos séculos XX e XXI.   

Mas é importante não confundir a estrutura da estética Gótica com as características dos movimentos influenciados por ela, nem confundir os movimentos e estéticas “canibalizados” pela subcultura Gótica com as origens destes “pedaços” comidos e regurgitados. Estes novos itens são absorvidos e recontextualizados pelos Góticos, gerando um novo significado.
 
Por isso, “Entrando agora na sua quarta década, ela (a subcultura Gótica) é provavelmente a única subcultura a manter uma cena de escala internacional por um período de tempo tão longo.” (Spooner, 2012)

Assim, podemos esperar que a subcultura Gótica continue a se desenvolver, se modificar e ver novos galhos florescerem como vem acontecendo nos últimos 30 anos, da mesma forma que literatura Gótica faz nos últimos 250 anos.

Além disso, nos últimos 30 anos, vemos indícios da subcultura e da literatura terem uma reação dialética, e não apenas de descendência ou influência em uma só direção: elementos e conceitos da subcultura gótica são absorvidos também pela produção cultural Gótica não subcultural, que atinge a sociedade como um todo, como vemos através da popularidade dos filmes de Tim Burtom e roteiros e livros de Neil Gaiman, apenas para citar dois autores conhecidos fora da subcultura Gótica.   

H. A . Kipper, janeiro de 2012

Referências citadas:

“Goth Culture”, artigo de Catherine Spooner no livro “A new companion to the gothic.” Editado por David Punter (2012)

“The Cambridge companion to gothic fiction”, de J. E. Hogle (2002)

Introdução de Walter Scott à “The Castle of Otranto”, editado por E. F. Bleiber (1996)
 
“Vathek” – William Beckford- (versão inglesa)

“The Castle of Otranto”- Horace Walpole

 

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